Centro
O coracao da cidade, onde as calcadas guardam o eco dos comerciantes do seculo passado e o Cine-Theatro acende a vitrine da memoria.
Uma cidade que se dobra sobre si mesma como um livro aberto, com pagina de vento, capitulo de neblina, e um leitor sentado no banco da praca.
Ha cidades que se anunciam de longe, com luzes de cartao postal e uma trilha sonora ensaiada. Juiz de Fora nao. Ela aparece devagar, num declive de morro, num vapor que sobe da xicara, num bonde antigo que ja nao corre mais e ainda assim continua passando por dentro de quem mora aqui. E uma cidade de meia-luz, e e justamente nessa meia-luz que ela se deixa amar.
Aqui, a Manchester Mineira virou outra coisa. As chamines deram lugar a livrarias de sebo, os galpoes textis viraram salas de aula, e o estrondo das maquinas se acomodou na conversa baixa dos botecos da Halfeld, na voz do estudante atravessando a Rio Branco com livro embaixo do braco, no piano que escapa pela janela aberta do Conservatorio.
Quem chega procurando pressa nao acha. Juiz de Fora tem o tempo dos cafes que nao fecham as oito, dos cinemas que ainda projetam sessao de meia-noite, dos bares onde se discute Murilo Mendes como quem comenta o tempo. E uma cidade que pensa, e que pensa em voz alta, mas sem alarde, com aquele jeito mineiro de dizer muito dizendo pouco.
Esta e uma carta sobre ela. Sobre os bairros que se acendem ao fim da tarde como velas sobre uma mesa longa. Sobre o Paraibuna que corta a cidade ao meio sem pedir licenca. Sobre os morros que guardam a vista. Leia devagar, como se fosse a primeira vez que alguem te falasse de uma cidade.
Minha cidade tem o nome de um santo, mas vive de poesia profana, de musica nos bares, de luz amarela nas vidracas, de conversa que nao cabe no relogio.em homenagem a Murilo Mendes poeta nascido em Juiz de Fora, 1901
Sao sete regioes administrativas, e cada uma tem o seu modo de respirar. O texto a seguir nao e um indice, e uma planta baixa de afetos.
O coracao da cidade, onde as calcadas guardam o eco dos comerciantes do seculo passado e o Cine-Theatro acende a vitrine da memoria.
A regiao das casas de janela aberta, dos quintais com mangueira, das escolas que abrem cedo e das familias que se sabem pelo nome.
Onde a cidade veste seu lado nobre antigo, com museu, parque, palacio e ruas que parecem ter saido de uma aquarela do imperio.
A cidade que cresceu trabalhando, de fabrica e galpao, e que hoje guarda a memoria operaria como se guardasse uma medalha no fundo da gaveta.
A regiao que olha a cidade do alto, com a UFJF de um lado e o Morro do Imperador do outro, sustentando o ceu por algumas horas.
O bairro de classe media de varanda, padaria de esquina e crianca andando de bicicleta, onde a cidade se faz cotidiano sem alarde.
A fronteira que ainda se inventa, com Cascatinha, Salvaterra e a sensacao de que a cidade esta escrevendo as proximas paginas em folha em branco.